Enquanto aguardava o dia da execução de sua sentença de morte, em Utah, nos EUA, o prisioneiro Gary Gilmore escreveu para a namorada: “Eu quero acertar, quero estar correto, inteiro, ter minhas dívidas saldadas (não importa quanto custe), não ter manchas, nem razão para me sentir culpado ou temeroso… Eu gostaria de estar na presença de Deus. Gostaria de saber que estou justificado, reto e limpo”. Foi uma rara hora da verdade dentro da humanidade.

No encontro com sua história, diante do inevitável concluir da vida, Gary chegou a uma visão lúcida de si mesmo. Lucidez essa que poucas pessoas encontram na rotina da vida, particularmente enquanto a agitação e anestésicos perduram. Feliz é o ser humano que chega à condição interior de poder contemplar, face a face, sua necessidade de perdão.

Os estragos da culpa sem perdão são terríveis. Karl Menninger, renomado psiquiatra norte-americano, afirmou que se ele pudesse convencer os pacientes do seu hospital psiquiátrico que os pecados deles estavam perdoados, a maior parte deles deixaria o hospital no dia seguinte. A culpa tem consequências. Entretanto, no fundo todos são culpados diante de Deus, e todos sabem disso. Sabem que fracassam diante do perfeito padrão moral.

Em alguns casos, as consequências são manifestas, como quando há distúrbios graves. Mas, mesmo quando se vive como se estivesse de bem com a vida, usando os mecanismos que maquiem ou sublimam a culpa, o estrago já aconteceu. Seja a culpa evidente ou subjacente, ela sempre detona a humanidade de uma pessoa. Ou vem o surto ou se forma uma pessoa cuja humanidade é manipulada por subterfúgios internos e externos.  E esse é o estado da maioria das pessoas.

Se a culpa é uma realidade presente e destrutiva, então o perdão é urgente. Isso exige estabelecer o fórum adequado ou instância competente para o perdão. O pecado é o ato do pecador contra si mesmo e contra o próximo. Mas, não é nem o ofensor e nem o ofendido que estabelecem o que é pecado. O certo e o errado antecedem e extrapolam tanto a existência do ofensor como a do ofendido.

O fato é que tanto o ofensor como o ofendido estão debaixo de uma lei maior que os transcende. Uma lei maior estabelecida pelo universo? Certamente que não. Ninguém ouviu o universo ditar qualquer princípio moral. E um corpo mecânico como ele não partilha da dimensão moral. Então se trata de uma lei maior promulgada pela humanidade? Certamente que não.  É impossível definir qual fatia da humanidade é essa, bem como o que ela teria estabelecido.  Ou seria o caso de uma lei maior legislada pela sociedade? Certamente que não. Há variedades de sociedades. E sociedades podem abraçar princípios errados como, por exemplo, a sociedade nazista na Alemanha.

A lei maior, acima de tudo e todos, é reflexo da vontade e caráter de Deus. E nele a lei maior tem sua referência. Antes de ser um fracasso diante do outro e de si mesmo, o fracasso moral é um ato contra Deus. O fórum adequado para lidar com o pecado pertence à jurisdição de Deus. Somente aí a alma encontra a cura do perdão adequado. O fato maravilhoso é que Deus, revelado em Cristo, é o Deus do perdão. Não há contrito e arrependido que não experimente o perdão diante de Deus, mediado pela morte substitutiva de Cristo na cruz – pena exaustiva assumida por Deus. É provisão do amor de Deus. Se não fosse assim, o que e quem poderia aplacar a culpa? E o que fazer diante do fato que ninguém consegue viver uma vida perfeita?

Num outro tempo, ao convocar a nação norte-americana para um dia de oração, em 30 de março de 1863, o presidente Abraham Lincoln proclamou: “É dever das nações e também dos homens reconhecerem sua dependência do poder soberano de Deus, confessar seus pecados e transgressões em humilde contrição, mas com a esperança segura que o arrependimento genuíno levará à misericórdia e perdão”.

Profundamente oportuna é a observação do salmista: “Como é feliz aquele que tem suas transgressões perdoadas e seus pecados apagados!” (Salmos 32:1). No cemitério de Sydney, próximo de Nova York, há um túmulo cuja lápide traz a única descrição adequada, tanto para o viver como para o morrer: “Perdoado”. É preciso o encontro com o perdão para se desfrutar uma vida integral e sã. E é urgentemente preciso encontrar o perdão antes do encontro inesperado com a lápide.