O otimismo é sempre apreciado. E a busca atual por otimismo é ampla. E tem inclusive uma natureza religiosa. A popularidade das palestras e livros de autoajuda, bem como a ênfase em pensamento positivo, é prova disso. Porém, ao abrir os jornais, e ao enfrentar realidade da vida, se depara com uma situação que impõe pessimismo.

Nenhuma técnica de pensamento positivo, oriental ou ocidental, muda a realidade, por mais que textos e palestrantes carismáticos e habilidosos digam o contrário. Eles produzem apenas um anestésico paliativo que logo desvanece. Então, a questão inevitável é confrontadora. Seria o caso de se escolher o realismo e adotar o pessimismo? Porém, se assim for feito, a vida se torna insuportável.

O cerne desse dilema – otimismo ou pessimismo – está na dimensão dentro da qual esse binômio é abordado. Essa dimensão é identificada por Cristo como a “deste mundo” (Bíblia, João 17:14), quando da ampla oração dele refletindo as perspectivas que se abre ao ser humano a partir da pessoa e obra dele.  A alternativa limitada apenas entre otimismo ilusório e pessimismo realista é algo inescapável se a realidade for vista de forma secularizada, ou, “deste mundo”. Enquanto se equacionar a vida apenas dentro da dimensão “deste mundo”, permanecerá o inaceitável dilema – ou otimismo ilusório ou pessimismo realista.

Cristo abordou esse drama de forma libertadora e única. E apontou a solução. Na sua esclarecedora oração, quando se despedia de seus discípulos (João 17), Cristo afirmou que seus discípulos, de então e do futuro (v.20), “não são do mundo.” Então, Cristo claramente propõe a vida situada dentro de uma dimensão mais ampla que a realidade secular. Ele não nega a realidade do mundo, mas aponta que o mundo não é toda realidade. Além do mundo há uma dimensão que não é “deste mundo”. O mundo é secular, isto é, é condicionado ao o “aqui e agora”. Mas, segundo Cristo, essa dimensão é apenas parte da realidade.

O sistema secular que domina a mentalidade da humanidade, se considerada coerentemente e realisticamente, pode apenas produzir um cenário pessimista, ainda que haja aqueles que insistem, nova e novamente, num otimismo irrealista e ingênuo. Porém, Cristo vem de outra realidade. Uma realidade que possibilita o otimismo. Nessa mesma oração já mencionada, Cristo fala de uma realidade definida por “Pai” (v.1), “glória” (v.1) e “vida eterna” (v.2). A fim de revelar essa realidade além “deste mundo”, Cristo irrompe na realidade “deste mundo”.

É importante notar que Ele revela não um conhecimento etéreo, místico ou teórico dessa realidade transcendente, mas um conhecimento objetivo e empírico da experiência incorporada nele. Ele afirma nessa oração – “Pai …a glória que eu tinha contigo antes que o mundo existisse.” (v.5) Ao infundir neste mundo a realidade além “deste mundo” – “Pai-glória-vida eterna” –  Cristo se revela como elemento de transformação e libertação. Ele possibilita o otimismo da realidade eterna dentro da realidade pessimista deste mundo.

Mas, se a realidade do mundo impetra o pessimismo, então deveriam os discípulos de Cristo viver em fuga “deste mundo”?  O intrigante é que Cristo, na mesma oração, intercede diante de Deus pelos seus discípulos dizendo: “Não rogo que os tires do mundo…” (v.15) E Cristo ainda avança mais nessa direção, e ora acrescentando: “Assim como me enviaste ao mundo, eu os enviei ao mundo.” (v.18) O discípulo de Cristo, ciente do pessimismo da realidade do mundo, não deve fugir dela, mas nela difundir o otimismo da realidade além deste mundo – “Pai-glória-vida eterna”.

O discípulo de Cristo não é otimista e nem pessimista. Ele é um pessimista otimista. Ele não nega a triste realidade do mundo, que é essencialmente causa de pessimismo, mas também conhece uma realidade além, e maior, que transforma a realidade presente e dá uma nova perspectiva – “Pai-glória-vida eterna”.

O discípulo de Cristo, à semelhança de seu Mestre, vive o mundo, mas espera e se guia pela realidade maior além “deste mundo”. Ele é um agente transformador, colocando o otimismo real dentro do pessimismo ao propagar a obra e esperança em Cristo. É dentro dos parâmetros dessa longa oração (João 17) que faz sentido o que Cristo afirmou antes de pronunciá-la: “Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham bom ânimo! Eu venci o mundo.” (João 16:33)