Andrei Sakharov, pai do programa nuclear da União Soviética, mas que militou contra as armas nucleares e opressão soviética, sendo contemplado com o prêmio Nobel, afirmou: “Eu sempre pensei que a arma mais poderosa no mundo era a bomba. Eu mudei de ideia. A arma mais poderosa no mundo não é a bomba atômica. É a verdade. ” É fundamental se entender e preservar a entidade “verdade”.

Se há verdade, então há uma fundação objetiva sobre a qual se pode edificar a vida humana. Se não há verdade, então há apenas um fluir que torna a vida um nada ou absurdo. Aliás, se não há verdade, então fica até impossível se falar que há algo definido que se denomina “ser humano”, pois não há a verdade “ser humano”. E, incrementando o absurdo, sem a verdade, a moral e propósito para a existência são inexistentes.

O Dicionário Oxford, um dos mais renomados da língua inglesa, em 2016 elegeu “pós-verdade”, uma palavra composta, como a palavra do ano. É uma nova palavra apropriada para estes novos tempos. Segundo o Oxford Dicionário, pós-verdade é um substantivo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. Um ícone disso é a nova sexualidade fluida das opções e da dita possibilidade do transgênero. Assim essa visão de sexo ilustra bem a pós-verdade. E assim seriam, então, os tempos atuais.

A verdade se desfez e sobrou um jogo de manipulação. O que se diz ser, é dito ser porque uma manipulação impôs que assim fosse dito e crido. Então, esqueça-se qualquer entidade conhecida como verdade, ou, aquilo que sempre é independente de formulações e manipulações. Mas estariam o ser humano, moral e propósito reduzidos entregues a isso?

Não há dúvidas que existem esforços para se manipular a verdade. E conforme cresceram os meios de comunicação, chegando-se a era da mídia atual, inclusive com a tal da realidade virtual, o jogo da manipulação da verdade se tornou agressivo. Em meio a tanta informação dirigida por interesses e causas, muitas vezes camuflados, o indivíduo se vê diante de um mosaico desconexo, sem saber no que crer como verdadeiro, ou, acaba crendo por manipulação. Um exemplo vívido disso são as manifestações dos políticos diante da atual onda sem fim de delações e condenações por corrupção.

É atribuído a Joseph Goebbels, o marqueteiro do nazismo, a frase: “Se você contar de forma suficiente uma grande mentira, e continuar a repeti-la, eventualmente o povo acabará crendo nela.” Têm-se argumentado que Goebbels não é o autor dessas palavras. No entanto, a frase representa bem a orientação marqueteira seguida por Goebbels no servir o regime de Hitler. E funcionou por um delongado tempo e o suficiente para causar um desastre mundial. O mundo que rejeito ou nazismo, lida com a verdade de forma semelhante à de Goebbels.

Verdade seria, então, um termo para denotar algo que não existe objetivamente, mas apenas uma construção subjetiva conforme sirva a interesses? Verdade denota apenas um jogo? É preciso fazer uma separação entre a manipulação da verdade e a verdade em si. O fato de haver o jogo de manipulação que visa impor o se crer como verdade visões e afirmações falsas, isso não quer dizer que exista a verdade real e objetiva.

Mas é fato que, manipulando a verdade, causas e interesses poderosos, econômicos e culturais, jogam pesado, especialmente na mídia, mas também nos meios acadêmicos, científicos e políticos. Entretanto, não há nenhuma novidade nesse jogo de manipulação da verdade. Nos dias de Sócrates, cerca de quatro séculos antes de Cristo, os sofistas atuavam em Atenas tripudiando a verdade.

Visando lucrar, os sofistas educavam a juventude, particularmente a da classe média, na habilidade da argumentação manipuladora a fim de ascender a escala social ateniense, especialmente na política. Um desses mestres, Protágoras, proferiu o conhecido aforismo: “O Homem é a medida de todas as coisas.” Ou seja, nada de verdade objetiva. Tudo é questão do que o ser humano projetar ou construir a partir de si.

Sócrates, opositor dos sofistas, disse a seu discipulo Faedo: “Onde, portanto, as pessoas são enganadas e formam opiniões distantes da verdade, é claro que o erro deslizou para dentro de suas mentes através de um meio que trazia certas semelhanças com a verdade. ” Na atualidade a proposta sofista, da verdade construída subjetivamente, dominou os formadores de opinião. Sumiu a verdade objetiva, particularmente quanto a moral, resultando no domínio do relativismo. É o grande engodo atual.

Todos sabem o que é verdade quando atravessam a rua. O caminhão em velocidade não deve ser considerado uma mera construção subjetiva do pedestre. Há uma verdade objetiva. Ou o pedestre, ou o caminhão, e nunca os dois na rua, senão o desastre acontecerá. E não há “construção de verdade” que altere essa realidade. Há um conhecer que corresponde à realidade, e um conhecer falso que não corresponde, ainda que gritem que seja verdade.

Mas conhecer a verdade, num mundo de interesses manipuladores exige uma análise crítica e extensa que a maior parte das pessoas não querem fazer. E, com fenômeno de mídia visual, como a TV, surge o engano de se pensar que o que assistiu é verdade porque “viu”. Desconsidera-se que a câmera é manipulada e o roteiro é edição e produção. TV exige muito mais cautela crítica do que a leitura. Há a verdade, mas é preciso encontra-la com esforços.

O existir da verdade aponta que há de existir a verdade maior. É a verdade universal referência e geradora para todas as verdades particulares. E isso impõe a necessidade de se conhecê-la. É o bem maior que estabelece a moral e propósito corretos para a vida produzindo a edificação. Por isso é oportuno o cântico do salmista: “Antes que os montes nascessem, ou que tu formasses a terra e o mundo, mesmo de eternidade a eternidade, tu és Deus.” (Salmos 90:2) Diante disso, é inquietadora a afirmação de Cristo, aquele que andou entre nós: “Eu sou… a verdade.”(Bíblia, João 14:6)