Se há verdade, então há uma fundação objetiva sobre a qual se pode edificar a vida humana. Se não há verdade, então há apenas um fluir que torna a vida um nada ou absurdo. Aliás, se não há verdade, então fica até impossível se falar que há algo definido que se denomina “ser humano”. E no mesmo absurdo ficam os aspectos fundamentais da existência, como moral e propósito.

O Dicionário Oxford, um dos mais renomados da língua inglesa, em 2016 elegeu “pós-verdade”, uma palavra composta, como a palavra do ano. Uma nova palavra para estes novos tempos. Que tempos são estes? A resposta vem da própria definição da nova palavra. Segundo o Oxford Dicionário, pós-verdade é um substantivo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. Um ícone disso é a nova sexualidade fluida impondo que é possível ser transgênero. Assim é a pós-verdade. E assim seriam, então, os tempos atuais.

A verdade se desfez e sobrou um jogo de manipulação. O que se diz ser, é dito ser porque uma manipulação impôs que assim fosse dito e crido. Então, esqueça-se qualquer entidade conhecida como verdade. Mas, a existência humana e o ambiente físico-moral-espiritual no qual essa existência acontece, seria um todo sem a verdade, com apenas crenças construídas?

Não há dúvidas que existem esforços para se manipular a verdade. Muitos interesses se movem sem compromisso com a verdade. E conforme cresceram os meios de comunicação, chegando-se a era da mídia, inclusive com a tal da realidade virtual, o jogo da manipulação da verdade se tornou agressivo. Em meio a tanta informação dirigida por interesses e causas, muitas vezes camuflados, o indivíduo se vê diante de um mosaico desconexo, sem saber no que crer como verdadeiro, ou, acaba crendo por manipulação.

Um exemplo vívido disso são as manifestações dos políticos diante da atual onda sem fim de delações e condenações por corrupção. Versões e versões se multiplicam, sem compromisso com os fatos objetivos. É atribuído a Joseph Goebbels, o marqueteiro do nazismo, a frase: “Se você contar de forma suficiente uma grande mentira, e continuar a repeti-la, eventualmente o povo acabará crendo nela.” Têm-se argumentado que Goebbels não é o autor dessas palavras. No entanto, a frase representa bem a orientação marqueteira seguida por Goebbels ao servir o regime de Hitler. E funcionou por um delongado tempo e o suficiente para causar um desastre mundial. Ainda que em nada associada ao nazismo, o uso dessa mesma tática está muito em voga hoje.

Verdade seria, então, um termo para denotar algo que realmente não existe, mas apenas uma construção subjetiva que sirva a algum interesse? Verdade denota apenas um jogo? É preciso fazer uma separação entre o jogo da manipulação da verdade e a verdade em si. O fato de haver o jogo de manipulação que leva a se crer como verdade o que são visões e afirmações falsas, isso não quer dizer que exista a verdade real.

Mas é fato que causas e interesses poderosos, econômicos e culturais, jogam pesado, especialmente na mídia, mas também nos meios acadêmicos, e até científicos. Entretanto, não há nenhuma novidade nesse jogo de manipulação da verdade. Nos dias de Sócrates, cerca de quatro séculos antes de Cristo, os sofistas atuavam em Atenas. Eram especialistas em educar a juventude na habilidade da argumentação manipuladora a fim de ascender a escala social ateniense, especialmente na política. Um deles, Protágoras, proferiu o conhecido pensamento: “O Homem é a medida de todas as coisas.” Ou seja, nada de verdade objetiva. Tudo é questão do que o ser humano projetar ou construir a partir de si.

A causa de Sócrates era denunciar e combater os sofistas. Dialogando com seu discipulo Faedo, ele afirmou: “Onde, portanto, as pessoas são enganadas e formam opiniões distantes da verdade, é claro que o erro deslizou para dentro de suas mentes através de um meio que trazia certas semelhanças com a verdade. ” É antigo o jogo da verdade. A novidade atual é que a proposta sofista, da verdade construída subjetivamente, conseguiu dominar os formadores de opinião. Sobrou o relativismo, e sumiu a verdade objetiva.

Todos sabem o que é verdade quando atravessam a rua. O caminhão em velocidade não deve ser considerado uma mera construção do pedestre. Há uma verdade objetiva e crucial em questão. Ou o pedestre, ou o caminhão, e nunca os dois na rua, senão o desastre acontecerá. E não há “construção de verdade” que altere essa realidade. Então verdade é um fato em si. Há um conhecer que corresponde à realidade, e um conhecer falso que não corresponde.

Mas conhecer a verdade, num mundo de interesses manipuladores exige uma análise crítica e extensa que a maior parte das pessoas não querem fazer. E, com fenômeno de mídia visual, como a TV, surge o engano de se pensar que o que assistiu é verdade porque “viu”. Desconsidera-se que a câmera é manipulada e a apresentação é editada e produzida. Ver não é suficiente. Em termos de verdade, a tarefa é mais simples ao se ler um jornal do que ao se assistir TV. Mas as pessoas pensam equivocadamente ao contrário. E a passividade intelectual prefere a TV. Há a verdade, mas é preciso encontra-la com esforços.

O existir da verdade aponta que há de existir a verdade maior. E isso impõe a necessidade de se conhecê-la. É aquela verdade que, sendo abrangente, revela e sustenta o que é o ser humano e sua existência. É a verdade universal que define as verdades particulares. É o bem maior que estabelece a moral e propósito corretos para a vida. É aquilo que sempre foi, é, e será, soberanamente. Por isso é inquietadora a afirmação de Cristo: “Eu sou… a verdade.”(Bíblia, João 14:6) Seria Ele?