“Eu gostaria que alguém me tivesse dito, lá trás, que quando você chega ao topo, não há nada lá.” Assim ponderou, no pico de uma vida de sucesso, o renomado escritor britânico Jack Higgins, autor do renomado livro “A Águia Pousou”.

A expectativa de encontrar a satisfação ou prazer pleno em algum topo da vida é uma saga frustrante e comum ao ser humano, seja nos negócios, profissão, posses, entretenimento, vícios, etc. E mesmo que não procure o prazer pleno num topo, o prazer que a pessoa possa experimentar se chegar ao topo, não é menos frustrante.

Higgins se equivocou na sua ponderação ao lamentar que ninguém o advertiu sobre a expectativa equivocada que tinha sobre o “topo”. Já foi dito, há séculos atrás, que o prazer do topo, em si, é vazio.

Séculos antes de Cristo, depois de uma vida intensa e de luxuria, o bem-sucedido rei Salomão concluiu: “Eu disse a mim mesmo: Venha! Experimente a alegria. Descubra as coisas boas da vida! Mas isso também se revelou inútil… não me recusei a dar prazer algum ao meu coração…. Contudo… percebi que tudo foi inútil… não há nenhum proveito no que se faz debaixo do sol.” (Bíblia, Eclesiastes 2:1-11)

O problema humano não é que não há advertência sobre o frustrante prazer do topo. O problema é que poucos ouvem a advertência. Não ouvem porque a ilusão do prazer do topo é inebriante demais, especialmente nos anos jovens e fortes da vida. E então, essa ilusão se ajunta a comum arrogância humana, não permitindo que haja espaço para se ouvir advertências como a de Salomão.

Lamentável é o estado da alma na atual busca desenfreada do prazer do topo. Os autores e psiquiatras, da afluente cidade de Dallas, Frank Minirth e Paul Meier, no livro “Happiness Is a Choice” (Felicidade É uma Escolha), revelam que empresários milionários os procuram porque, tendo tudo, inclusive acesso a todos os prazeres, tais empresários  não têm paz e alegria interior: “Eles vêm à nossa clínica como último recurso, suplicando que os ajudemos a conquistar o impulso suicida que os aflige. ”

O atual mundo, sempre hedonista, fazendo do prazer seu objetivo, colhe o oposto do que busca nos topos que atinge. O mundo movido pelo prazer é o mundo vazio, infeliz e frustrante. O prazer em si é como a droga, sempre se busca mais para se conviver com o vazio provocado pela frustração do fugaz prazer anterior e novos topos são perseguidos na ilusão de que o próximo topo será diferente.

O Epicurismo ensinava que o prazer é o bem maior, por isso ele deve ser o alvo da vida. O Estoicismo afirmava que a “apatia”, ou seja, o negar todo desejo de prazer, é o caminho melhor para a vida. Porém, o caminho sábio, que responde ao drama humano, não é nenhuma dessas duas propostas.

F.W. Boreham, outro autor inglês, escrevendo meio século atrás, enquadrou bem o dilema humano: “Nós balançamos como um pêndulo, indo da libertinagem epicurista para a severidade estoica, falhando em não reconhecer que… é a glória do Cristianismo que, rejeitando o absurdo dessas duas opções, conjuga as excelências cardinais das duas… Estamos no mar sem compasso. Nossas teorias do prazer estão em confusão desanimadora. Não existe uma doutrina definida da diversão? … Deve haver uma! E há.”

Sim, há. Salomão, na citação acima, denuncia a limitação do prazer e a frustração do vazio dos topos. Mas, em seu livro “Eclesiastes”, Salomão também informa que o problema é que os prazeres almejados dependem de topos que pertencem ao âmbito “debaixo do sol”.  Tornar a busca do prazer, em algum topo “debaixo do sol”, em o propósito último da vida, é equívoco sempre frustrante. Isso é reduzir a vida ao âmbito “debaixo do sol”.

Na idade avançada, com anos de experiência e reflexão, Salomão concluiu: “Alegre-se jovem, na sua mocidade… mas saiba que por todas essas coisas Deus o trará a julgamento… Lembre-se do seu Criador nos dias da sua juventude… (Eclesiastes 11:9 a 12:1). A referência e o propósito da vida estão além do “debaixo do sol”. Não são achados nos finitos e furtivos prazeres dos topos terrenos.

Salomão adverte: “Lembre-se de seu Criador.” O propósito e a referência, para a vida, estão “além do sol”, na transcendência eterna de Deus. Essa realidade capaz de satisfazer o anseio do espírito humano. É uma realidade além da efemeridade dos topos e prazeres debaixo do sol.

Prazeres se tornam uma satisfação realizadora quando eles são experimentados, e apontam, para o prazer em Deus “acima do sol”. Encontrar Deus como o prazer maior da vida é o segredo da convivência equilibrada e satisfatória com a busca dos topos e seus prazeres terrenos. Deus é o topo que nunca passa e frustra. Nele e pare Ele é que se deve buscar os topos terrenos.

Borham, o autor acima citado, colocando o propósito e referência da vida em Deus, aponta alguns princípios norteadores, decorrentes de Deus, para a busca do prazer: “Qualquer prazer que o refrigere, mas sem subtraí-lo, distraí-lo ou desviá-lo do propósito último da vida, é um prazer legítimo. Qualquer prazer que danifique ou comprometa o direito sagrado do outro, é um prazer ilícito. Qualquer prazer, ainda que bom, se não for mantido debaixo de equilíbrio, distorcerá a realidade ou destruirá o apetite.” Esse é o modo de se escalar todos topos, sem cair em seus engodos.

Cristo veio ao mundo para apontar e possibilitar o propósito acima do sol – Deus, o prazer transcendente. Em Cristo, encontrando-se com Deus, no perdão gracioso por ele mediado, a vinda encontra seu verdadeiro propósito “além do sol”. E os topos terrenos, e seus prazeres, encontram seu devido lugar. Eles passam a ser uma experiência realizadora. Por isso Cristo afirmou: “eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente.” (João 10:10)