Como a pessoa se sente se ela se aproxima de Deus? Aproximar-se de Deus é como a experiencia com uma luz intensa. Depende da proximidade. Na ausência total da luz, nenhuma impureza é apercebida. Numa certa proximidade, há uma dada percepção de impureza.  E, se um ambiente foi limpo num dado grau de luminosidade, num grau maior será revelado que há outras impurezas que não haviam sido notadas antes. E esse processo continua cada vez que a intensidade da luz fica mais próxima. A luz é gradualmente perturbadora. E assim é com Deus.

Somente se aproxima de Deus aquele que realmente deseja a presença dele e quem passou a desejar a Deus mais do que os caminhos contrários a Ele. É alguém que, já não podendo resistir, se entregou ao amor de Deus. E, para essa pessoa, o aproximar-se de Deus é sempre paradoxal. Quanto mais ela se aproxima de Deus, mais ela se apercebe da profundidade de sua impureza e assim, mais ela se purifica.

Se uma pessoa diz estar próxima de Deus e, se sente moralmente confortável e adequada, então ela é alguém totalmente equivocada. Essa pessoa está longe de Deus. Igualmente, está longe de Deus aquele que diz reconhecer sua imperfeição moral, mas não demonstra quebrantamento e nem mudança. Essas atitudes são de quem está próximo de um “deus” que ele mesmo projetou. Um ídolo, na verdade.

Sendo comum esse equívoco, não surpreende que a imoralidade viceja na sociedade atual enquanto se manifesta uma religiosidade intensa. A real proximidade de Deus é profundamente perturbadora e transformadora e, por isso ela é evitada. Cristo diagnosticou: “Esse é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram as trevas, e não a luz, porque suas obras eram más.” (Bíblia, João 3:19)

Quando o profeta Isaías teve a visão da presença de Deus no templo, ele exclamou: “Ai de mim! Estou perdido! Pois sou um homem de lábios impuros e vivo no meio de um povo de lábios impuros; os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos!” (Bíblia, Is 6:5) O apóstolo Pedro, quando se encontrou, pela primeira vez, com Cristo, implorou: “Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador!” (Bíblia, Lc 5:8) O apóstolo Paulo, depois de décadas de apostolado, confessou: “Sei que nada de bom habita em mim… Miserável homem que eu sou!” (Bíblia, Rm 7:18,24)

A marca da verdadeira crença em Deus, e do que é estar na presença dele, não é um sentimento próprio de bondade, moralidade e perfeição. A marca real do se aproximar de Deus envolve uma profunda consciência de fracasso e imperfeição moral, mas também um insaciável desejo de transformação e purificação. Mas, então, não há nenhum descanso para quem verdadeiramente se aproxima de Deus?

A resposta está no cerne do Evangelho expresso pelo termo “graça”. O termo significa “favor”, mas com uma qualificação excepcional. A “graça” de Deus em Cristo significa “favor imerecido”. O Evangelho fala de um favor de Deus, proporcionado em Cristo, que o ser humano não merece. A morte de Cristo na cruz, tomando o lugar e culpa do ser humano, moralmente devedor, é que provê e media essa graça divina. O justo se deu pelo injusto. Então, se aproxima de Deus somente aquele que, tomando profunda consciência de sua condição fatal, não vê outro caminho a não ser o favor imerecido de Deus – a graça – que o perdoa em Cristo, reconciliando-o com Deus.

Assim, o que leva o verdadeiro cristão (distinto do cristão cultural) a se aproximar de Deus, não é seu mérito moral, mas sua profunda dependência da graça de Deus em Cristo. E, por essa graça ser irresistível para ele, é que ele mais e mais se aproxima de Deus. E mais e mais se apercebe da profundidade de sua impureza, sendo mais e mais purificado por meio dessa graça. E assim prossegue sendo sempre confrontado, mas descansando, não em si mesmo, e sim no favor imerecido e suficiente provido por Deus em Cristo, que o perdoa e transforma.

Depois de afirmar: “Miserável homem que sou”, o apóstolo Paulo exclamou: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor!” (Rm 7:25) E, em outro lugar, esse apóstolo testifica: “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar pecadores, dos quais eu sou o pior.” (Bíblia, I Tm 1:15) Enfim, quem de Deus se aproxima através de Cristo, nunca mais será o mesmo quanto a visão de sua impureza, e quanto ao que lhe pode dar descanso e paz com Deus. É o caminhar com a graça divina.