Os pais se divorciaram quando ele tinha 9 anos de idade. A mãe ficou com a sua guarda. E o pai dava a pensão alimentícia, visitando-o esporadicamente. Depois que ele completou 15 anos, o pai nunca mais apareceu. Por volta dos 18 anos ele se conscientizou de que o pai havia realmente sumido. Nem ele e nem sua mãe sabiam do paradeiro do pai.

Quando completou 21 anos ele teve o desejo de ter um contato com seu pai. Depois de muito pesquisar, descobriu o telefone do pai numa cidade a centenas de quilômetros de distância. Ele telefonou, se apresentou, mas o pai respondeu que havia um engano e que não o conhecia. O jovem foi simplesmente rejeitado. Como alguém reconstrói sua saúde emocional e história diante de tal rejeição?

A rejeição está aí, em todos os cantos da sociedade. Cônjuge rejeita cônjuge por divórcio ou por relacionamento marcado pela desconsideração e desrespeito. Pais rejeitam filhos através de abuso ou abandono. Amigos rejeitam amigos pelo rompimento da amizade ou falsidade. A rejeição profissional vem através de um golpe no âmbito profissional. Enfim, muitos experimentam o trauma de uma rejeição marcante e histórica. E todos experimentam rejeições sutis e menos dramáticas.

Uma rejeição pode causar marcas profundas.   Ela pode produzir avaria emocional crônica. O rejeitado permanece com sentimento de que nunca é aceito, fica na insegurança de sempre dar a impressão errada, tem dificuldade de receber e dar amor, adota a atitude sistematicamente crítica, sofre o jugo do perfeccionismo por querer ser aceito, torna-se antissocial para não se expor a rejeição, desenvolve sensibilidade acentuada e desequilibrada, incorpora carência aguçada com desejo exacerbado por aceitação, etc. Rejeição pode causar sérios desajustes íntimos e emocionais e, consequentemente, dificuldades na esfera relacional.

Cristo foi rejeitado em sua cidade (Bíblia, Mc 6:1-4). Isaías, profetizando sobre Cristo, séculos antes de Ele vir ao mundo, anteviu: “Foi desprezado e rejeitado pelos homens… como alguém de quem os homens escondem o rosto, foi desprezado” (Bíblia, Is 53:3). Cristo veio para se identificar plenamente com a humanidade. E por isso viveu em contato com as misérias morais da humanidade, sempre tão longe de Deus. E assim Cristo sofre uma rejeição aguda.

Esse Cristo, que conhece experimentalmente o drama do rejeitado, é justamente a resposta para o problema da rejeição. Neste mundo sempre haverá a rejeição. Ninguém será plenamente aceito ou aceitará plenamente o próximo. E, lamentavelmente, até o rejeitado também incorre no pecado da rejeitar o próximo. Um notável exemplo disso é encontrado no livro “O Diário de Anne Frank”. A garota foi rejeitada pelos nazistas por ser judia. Porém, enquanto abrigada num esconderijo junto com outros judeus, em dados momentos rejeitava seus companheiros de reclusão. Se depender do ser humano, não há solução. Ou o foco afetivo se volta para Deus primeiramente, ou sempre haverá e permanecerá as repercussões da rejeição.

O rejeitado pode esvaziar a rejeição, encontrando a saúde emocional. É preciso redirecionar sua afeição primeiramente para Deus. Mas Deus revelado em Cristo.  Deus em Cristo é a grande acolhida. E amor expresso pelo perdão e aceitação, sem limites, mediante a provisão da morte substitutiva na cruz. Nela Cristo tomou sobre si as mazelas morais humanas, possibilitando o ser humano ser perdoado e aceitável a Deus. Ao colocar sua referência afetiva nesse amor divino, o rejeitado esvazia a rejeição humana se enchendo do amor de Deus.

De 1501 a 1504, Michelangelo esculpiu a obra-prima “Davi”. Anos antes, tentativas de fazer essa obra já haviam sido realizadas com outros escultores, como Duccio e Rossellino. Mas nenhum levou em frente o projeto. Apenas alguns entalhes referentes às pernas de “Davi” foram feitos por Duccio. O bloco ficou exposto ao tempo por 25 anos no pátio da catedral de Santa Maria Del Fiori. O bloco havia sido tão danificado que diminuíra de tamanho. Finalmente, nas mãos de Michelangelo, o bloco abandonado, desgastado e bruto, virou algo sublime.

Semelhantemente, muitos têm sofrido rejeição na sua história. E muitos carregam danos horríveis da rejeição. Mas, quando a vida danificada pela rejeição se entrega ao amor de Deus em Cristo, a rejeição é esvaziada. E surge uma obra surpreendente. Nesse amor do Mestre dos mestres o rejeitado experimenta a verdadeira aceitação… aceitação plena e eterna.

E assim se torna livre para se relacionar com os outros seres humanos por não mais depender da aceitação dos seres humanos para seu bem-estar e valor. O amor de Deus esculpe algo sublime no mais rejeitado, e então danificado, “bloco” humano. Ressoa o convite de Cristo: “Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso.” (Mt 11:28)