“Quando os justos florescem, o povo se alegra; quando os ímpios governam, o povo geme… O rei que exerce a justiça dá estabilidade ao país, mas o que gosta de subornos o leva à ruína. ” Estas são palavras nada novas. Elas vem do livro de Provérbios (Bíblia, Pv 29: 2,4), sendo o autor o grande rei Salomão por volta do século X ac. Mas, a antiguidade delas em nada as desatualizam, especialmente quanto as consequências: “povo geme” e “leva à ruína”.

O doloroso das verdades dessas antigas palavras é que elas fazem a leitura precisa do que o povo brasileiro amarga na atualidade. Um povo que vive um momento lamentável porque simplesmente faltou o “florescer dos justos” e multiplicou o “rei… que gosta de subornos”. A pergunta que naturalmente brota é qual seria a solução para o quadro atual do Brasil.

O regime político é formalmente democrático e é dito que as instituições estão funcionando. Mas democracia não resolve problemas por si mesma. Ela é apenas uma ferramenta que faz muito bem se seus operadores a usar sabiamente. E democracia formal não significa democracia de fato. A democracia é um fracasso se o voto do cidadão é subalterno à um sistema que serve primeiramente aos partidos e seus chefões, se os eleitos não representam um eleitorado definido e não respondem a uma comunidade estabelecida, se partidos são apenas fisiologismos, se políticos e partidos são encastelados no poder distante do controle do eleitor, se os políticos têm ampla liberdade para manobrar a qualquer custo a permanência no poder, etc.

E dizer que as instituições estão funcionando nada significa se esse funcionamento não for qualificado. Coisas podem estar funcionando, mas de forma incorreta, sofrível, ineficiente e até desastrosa. E por isso, o apenas funcionar pode significar pouco, e até mesmo nada. Um automóvel funcionando, mas, com componentes arruinados, pode ser nada confiável. Assim seria um automóvel inadequado para cumprir a tarefa desejada e pode até causar um desastre. Então, quando se fala que algo está funcionando, é preciso avaliar como tal coisa está funcionando. É preciso analisar desse modo as instituições democráticas.

Necessário se faz enfrentar a questão se a democracia em vigor no Brasil está à altura para tirar o país do atoleiro atual. Esse atoleiro inclui o econômico. Mas ele também inclui a própria democracia e políticos. E o econômico passa pela ação e condição das instituições e figuras políticas. Ciente da informação farta na mídia sobre a conduta das lideranças políticas do país, o cidadão consciente, não acorrentado pela morosidade, preciosismos e complexidades dos protocolos e ritos judiciais, conclui sobriamente na sua intimidade que, resguardadas algumas exceções, a nação tem sido, nos últimos anos, e é no presente, governada por criminosos.

Além disso, seriam suficientes apenas alguns minutos observando a recente a votação no Congresso da denúncia contra o presidente Temer, independente de quem votou sim ou não, para se concluir que o nível e natureza daquele colegiado jamais corresponderá a necessidade da nação no momento. A grandeza passou longe. O cinismo obsceno transborda. O fisiologismo impera. Limitação no arrazoar é comum. Visão para a pátria está ausente. Ideologia cega e conveniente é a regra.

Quando a democracia entra nesse processo de falência, dificilmente ela consegue mudar a si mesma. E por isso, fracassa em resgatar a nação. O possível destino, ensina a história e ciências políticas, é a revolução. Mas revolução, seja de esquerda ou de direita, exige uma ideia diferente, para melhor, daquela que impera. E uma revolução de resultados saudáveis exige que essa ideia restauradora, e seus aderentes em número significativo, sejam uma renovação moral da podridão e falência em vigor.

Essa ideia renovadora e sua mobilização não existem no Brasil do momento. Não há para onde olhar e nem para onde correr. Aliás, a sociedade brasileira, alimentada pelos centros de cultura e educação, mais a mídia, mergulha na ruptura moral. Além dos políticos, a sociedade está contaminada. O que existe é mais do mesmo. Além disso, revolução raramente não envolve embates sangrentos, prisões de exceção, iniciativas absolutistas e expurgos. E revolução é sempre algo incerto quanto aos rumos que tomará quando conquistar o poder. Enfim, por essas razões, revolução não é desejada enquanto se puder agarrar a democracia por mais agonizante que seja.

É verdade que resgatar uma democracia em putrefação, através da própria democracia, é muito difícil, mas não impossível. Porém, atentando para as palavras acima de Provérbios, nas Escrituras, a solução real é que os “justos floresçam” na terra e isso conduza a um “rei que exerça justiça”. Se isso acontecer, ainda é tempo para resgatar a nação pela democracia. Mas tudo indica que o tempo é breve.

E se não houver esse resgate? Então, o jeito é se preparar para viver numa péssima nação ou atravessar grave período conflituoso. O caminho da sabedoria de Provérbios, que exige o florescer do justo na terra, passa pelo quebrantamento e volta à Deus. O caminho que se encontra em Cristo precisa ser trilhado.

O cientista político francês, Alex de Tocqueville, nas suas conclusões “Democracy in America”, quando da sua visita aos EUA no sec. XIX, narrou: “Eu busquei pela grandeza e genialidade da América nos seus campos férteis… minas… comercio… Congresso… inigualável constituição… mas não estava em nada disso. Não entendi a grandeza da América até que entrei em suas igrejas e ouvi seus púlpitos inflamados com retidão…” Porém, esses eram outros tempos e outros púlpitos. Entretanto a lição pode ser aprendida em tempo.