Ele já está tão acostumado a ter a luz artificial durante a noite que não consegue nem imaginar o que seria a vida sem esse benefício. E, numa ocasião, depois de comprar uma lâmpada, saiu da loja com o pensamento que, como pagou pela lâmpada, nada devia a ninguém.

Mas esse pensamento está longe da verdade. Por entender isso é que, depois da primeira colheita após um ano muito desafiador, em 1621 os colonizadores pioneiros da América do Norte, “os peregrinos”, celebraram o primeiro dia de ação de graças (“Thanksgiving”). Celebração essa que motivou posteriormente a criação do feriado americano comemorado em novembro. O fato é que a gratidão é sempre devida, mesmo quando se compra uma lâmpada.

Alguns reais jamais pagariam plenamente por uma lâmpada. Esses reais nunca poderiam pagar o fato de uma mente criativa ter sido concedida a Thomas Edison, o inventor da lâmpada. Esses reais também nunca pagariam o esforço e determinação que Thomas Edison dedicou para chegar a esse invento. E nem pagariam os anos que a mãe de Thomas Edison aplicou para educá-lo em casa, nutrindo a curiosidade dele, uma vez que a estrutura escolar não era adequada para ele.

Atualmente o pensamento comum é “Não devo nada a ninguém”. Ou seja, é possível viver sem ter que ser grato. Oposto a essa posição está a atitude de Einstein, que tendo galgado um patamar que poucos atingiram, assim se expressou: “Eu frequentemente me preocupo com o pensamento que minha vida tem como base, na sua maior parte, o trabalho de outros seres humanos, meus próximos, e tenho consciência da minha grande dívida para com eles.” Mas essa realidade da gratidão vai além do nível humano. Os próprios seres humanos à volta não são concessões produzidas por eles mesmos.

A sociedade atual é bem representada pelo equivocado Bart Simpson, o personagem do desenho animado, que assim ora a Deus antes da refeição: “Prezado Deus, nós mesmos pagamos por tudo isto. Portanto, obrigado por nada. Amém”. Esse equívoco foi denunciado por Solzhenitsyn: “As pessoas se esqueceram de Deus”. Como poderia se pagar ou autoproduzir a família provida, a oportunidade surgida, a habilidade da comunicação verbal, as capacidades pessoais, a inteligência inerente, a liberdade herdada, a saúde usufruída, e mesmo a própria vida?

Diferente da sociedade atual, o Evangelho ensina: “Devo tudo”. Não há como viver sem ter que ser grato. Aliás, uma das situações mais patéticas é o ateu querer agradecer e não ter a quem fazê-lo. Por isso, não faz sentido atravessar a vida sem ter a quem agradecer em última instância.

O compositor Johann S. Bach assim entendia quando escrevia na margem de suas extraordinárias músicas as iniciais “SDG” – Soli Deo Gloria. Isto é, “Somente a Deus Glória”. Referindo-se ao costume natalino de seu país, o pensador Inglês G. K. Chesterton ponderou: “Se minhas crianças acordam na manhã de natal e tem alguém a quem agradecer por ter colocado doces nas ‘meias de natal’ dependuradas na sala, não teria eu também alguém a quem agradecer por ter me dado dois pés para colocar nas minhas meias?”

Por essas obvias e inevitáveis razões, o apóstolo Paulo ordenou: “Em tudo daí graças…” (I Tes. 5:18) O encontro com Deus através do perdão gracioso e pleno, advindo da morte de Cristo no lugar do culpado e rebelde ser humano, produz uma vida de gratidão.

Primeiro, vem a gratidão por essa concessão maravilhosa e inexplicável de perdão imerecido que Deus proveu em Cristo. E, depois de se ter acertado humildemente com Deus, em Cristo, reconhecendo Deus como o centro e sustentador da vida, nasce a gratidão por tudo mais. Essa gratidão revoluciona a proposta de vida. Ela cria uma nova vida a partir de Cristo! É uma vida com um sublime horizonte e perspectiva que não se pode conhecer de outra forma.