Todos sabem que falta o bem-estar íntimo, para se livrar da inquietação e desconforto interior. Lança-se mão de muitos escapes, passando pela religiosidade, terapias e entretenimento. É a busca incessante pela “paz”.

O entendimento comum é que paz é dependente de uma condição exterior, especialmente a ausência de conflitos ou adversidades. Se não é possível eliminá-los, resta aplacá-los através de algum tipo de fuga ou anestésico. A palavra paz pode se referir a essa condição exterior. E resolver conflitos é um ideal recomendável. Porém, paz, no sentido do bem-estar íntimo, é distinta da ausência de conflitos externos. Aliás, paz, entendida dessa forma, jamais será alcançada, pois conflito é comum a este mundo. Nem Jesus Cristo viveu sem conflitos externos.

A paz interior envolve o reestruturar íntimo do ser humano e ela é possível. O ensino bíblico, que trabalha essa paz intimista, apresenta uma abordagem libertadora. Paz no sentido cristão-bíblico reflete o sentido do termo hebraico “shalom” (paz), comumenta usado no Velho Testamento na Bíblia (“eirene” no grego do Novo Testamento). No sentido bíblico, “shalom” é uma condição holística que pertence ao íntimo do ser humano. Ou, uma condição espiritual. É estar e sentir-se completo e satisfeito interiormente através do relacionamento pessoal com o que é maior que a realidade conflituosa deste mundo.

Portanto, “shalom” não é uma condição de indiferença ou fuga dos conflitos. “Shalom” é a condição de poder conviver com um mundo conflituoso e maligno tendo um recurso capaz de dar repouso e segurança em tal mundo. Esse estado interior, ou “shalom”, é possível porque existe o recurso para tal paz holística e transcendente. O recurso emana de uma fonte além e acima dos conflitos e pessoas, como é necessário que seja.

“Shalom” no ensino bíblico é estar sob a benção de Deus. Isto é, ter ciência de que se está em relacionamento resolvido com Deus, de forma permanente, e que tudo está debaixo da vontade de Deus. Então, “shalom” exige primeiramente o solucionar da questão pessoal com Deus. Isso requer se chegar à convicção e experiência de que tudo está acertado entre si e Deus. “Shalom” é estar plenamente reconciliado com Deus. É ter consciência que foi perdoado e reatado para sempre com Deus. E isso é possível porque Deus providenciou o caminho necessário.

A culpa da vida indiferente a Deus, bem como dos pensamentos e atos contrários a Deus, foi graciosamente colocada, pelo próprio Deus, sobre Cristo na cruz. A dívida e pena foram pagas. O conflito e separação foram removidos. Deus assim agiu, em Cristo, a fim de viabilizar a paz entre o ser humano e Ele. É iniciativa de um Deus misericordioso.

O apóstolo proclamou: “Pois foi do agrado de Deus que… por meio dele (Cristo) reconciliasse consigo todas as coisas… estabelecendo a paz pelo seu sangue derramado na cruz.” (Bíblia, Colossenses 1:20). Séculos antes de Cristo, o profeta Isaías já preanunciara essa obra: “…o castigo que nos trouxe a paz estava sobre Ele…” (Isaias 53:5) A paz que ninguém poderia obter pelos seus esforços, religiosos ou morais, Deus provê através do imerecido favor – graça – em Cristo. E, o ser humano que não recorre, humildemente, a essa iniciativa eficiente e graciosa de Deus, é alguém destinado a agrura de uma saga sem fim da busca da paz com Deus.

Por isso, o discípulo de Cristo, por já ter se abrigado nesse imerecido favor concedido por Deus em Cristo, vive “shalom” no seu espírito em meio às conturbações do mundo à sua volta. É o cumprimento da promessa de Jesus Cristo: “Deixo-lhes a paz! A minha paz vos dou. Não a dou como o mundo a dá. Não se perturbe o coração, nem tenham medo.” (João 14:27)

A paz com Deus e de Deus, em Cristo, é transcendente ao ser humano. Ela extrapola os alcances da mente humana. Porém, essa paz é fonte de sanidade e sustento. O apóstolo Paulo pondera assim sobre a “shalom” em Cristo: “E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus.” (Filipenses 4:7)

Agostinho, o teólogo do IV século, buscou paz na licenciosidade, religiosidade mística e pensamento filosófico. Depois de muito tormento, finalmente sua mente brilhante e coração perturbado encontraram paz em Cristo. Agostinho exclama nas suas “Confissões”: “Tu nos criaste para Ti mesmo, oh Senhor, e nosso coração estará conturbado até que ele encontre descanso em Ti.”