Um Movimento Por Um Cristianismo Conforme as Escrituras

A Contribuição do Ambiente da Reforma para os Batistas: Somente as Escrituras
No século XVI surge na Europa o movimento da Reforma, visando restaurar a Igreja Católica Romana. O movimento foi liderado por homens como Lutero, na Alemanha; Zwinglio, no norte da Suíça; Calvino, em Genebra; os Valdenses e Huguenotes na França, além de outros. Uma data considerada marcante é 31 de Outubro de 1517, quando Lutero fixou na porta da Igreja em Wittenberg suas 95 teses contra a Igreja Romana, particularmente contra a venda de indulgências (venda Papal do perdão).

A Reforma nasce num ambiente europeu no qual governo e Igreja se misturavam. Essa união política-religiosa começou quando o Império Romano abraçou oficialmente a Igreja Católica. Depois que o Império Romano ruiu, não havendo mais o poder unificador e moderador do Imperador Romano, o Papa passou a preencher esse espaço. O Papa exercia um poder controlador sobre os muitos territórios que surgiram da divisão do Império. E por isso, na época da Reforma, qualquer questão envolvia o estado e religião.

Surgiu por volta do século XV, em diante, uma insatisfação com a corrupção da Igreja Católica Romana e a deterioração das verdades da fé. Nesse momento de profunda inquietação espiritual começaram a se levantar vozes que pediam que a Igreja voltasse ao Cristianismo da Bíblia. A Reforma se definia pelos lemas: “Somente as Escrituras” (A Bíblia, e não a tradição da Igreja Romana, era a autoridade da fé), “Somente a fé”, “Somente a Graça”, “Somente Cristo”, e “Somente a Deus Glória”. Ainda que tudo tenha começado com o desejo de reformar a Igreja Romana, a resistência da mesma levou a um choque de posições. As divisões aconteceram, surgindo as Igrejas Evangélicas e Reformadas.

Conexão Batista com a Reforma na Inglaterra: A Busca pela Verdade das Escrituras

A Reforma também aconteceu na Inglaterra. Os problemas políticos já vinham desgastando o relacionamento do Papa com o povo e reis Ingleses. Isso especialmente por causa dos impostos papais. Além disso, a volta à Bíblia já vinha sendo pregada na Inglaterra desde o séc. XV por John Wycliffe, pedindo correções nas doutrinas da Igreja. Outra influência foi William Tyndale (1494 – 1536) que traduziu o Novo Testamento para o Inglês, também desejoso de reformar a Igreja. E nessa época os sábios das Universidades inglesas de Oxford e Cambridge leram e foram influenciados pelas obras de Lutero.

Henrique VIII, rei inglês de 1509 a 1547, casado com Catarina, era perturbado em sua conduta sentimental e vida matrimonial, inclusive por ter casado com Catarina, a viúva de seu irmão. Ele se apaixonou por Ana Bolena. Pediu, então, seu divórcio de Catarina, mas a Igreja Romana o negou. Com isto se iniciou um período de confrontos entre Henrique e o Papa. Com o parlamento Inglês apoiando Henrique, esse processo culminou em 1534 com a separação entre a Igreja da Inglaterra e a Igreja Católica Romana. E assim nasceu a Igreja Anglicana da Inglaterra. A motivação de Henrique VIII, nessa separação, era pessoal e política. Mas, devido ao processo que o povo inglês viveu nas décadas anteriores, o qual incluía a opressão do imposto Papal, bem como a pregação bíblica de Wycliffe e Tyndale, a mentalidade da população estava pronta para apoiar essa separação da Igreja Católica Romana. Porém, a separação das Igrejas decretada por Henrique VIII foi apenas administrativa. As doutrinas da Igreja Inglesa continuavam basicamente as mesmas da Igreja Romana. E foi assim até a morte de Henrique.

Eduardo VI, o herdeiro de Henrique VIII, levou a Igreja Inglesa a adotar reformas doutrinárias. Na morte de Eduardo, sua irmã Maria, uma católica romana ferrenha, assumiu o trono de 1553 a 1558. Ela lutou para levar o parlamento a repudiar as reformas feitas por seu irmão Eduardo VI. Ela moveu uma grande perseguição contra os que se opunham a sua volta às doutrinas da Igreja Romana. Muitos foram martirizados ou fugiram para outros países.

Elisabete sucedeu a Maria no trono. Diferente de sua irmã Maria, Elisabete reafirmou a Igreja Inglesa, o que tornou a Igreja Anglicana a igreja oficial da Inglaterra. E ela estabeleceu que a Igreja ficaria debaixo da autoridade real. E isto implicava em declarar ilegal qualquer outro movimento religioso ou discordância da Igreja Anglicana.

O principio Batista originário dos Puritanos Separatistas: Uma Igreja Puramente Bíblica

Durante esses anos de turbulentas reformas na Inglaterra, surgiram grupos que não estavam satisfeitos com as reformas doutrinárias introduzidas na Igreja Anglicana. Eles queriam uma Igreja mais pura do ponto de vista bíblico. E por isso foram chamados de Puritanos. E, entre os Puritanos, havia alguns que queriam não somente uma reforma doutrinaria baseada na Bíblia, mas também queriam uma Igreja independente do estado e governo. Esses Puritanos foram chamados de Separatistas. O entendimento dos Separatistas era que a Igreja precisava buscar o modelo Apostólico de Igreja conforme o ensino do Novo Testamento na Bíblia. E pelo Novo Testamento entendiam que a Igreja não podia estar ligada ou submissa ao estado, e nem a fé ser imposta por leis. E argumentavam que ninguém devia se tornar Cristão por força, mas sim por crer de livre consciência.

Os Batistas surgem da Fuga dos Separatistas Para a Holanda: Uma Busca Mais Radical das Verdades das Escrituras

Naqueles períodos de fechamento político e religioso na Inglaterra, acompanhado de questionamentos sobre a nova ordem religiosa, muitos choques aconteceram entre os monarcas ingleses e os Puritanos-Separatistas, trazendo momentos difíceis para os seguidores desse movimento. Nessa época, diante da perseguição que sofriam na sua terra, alguns separatistas fugiram para outros países no continente Europeu.

Em 1609, um desses grupos, uma congregação liderada por John Smith, se refugiou em Amsterdã, Holanda. Lá, dedicados ao estudo do Novo Testamento, se reorganizaram como uma Igreja à luz do que aprenderam. Na Holanda, assim como na Suíça e sul da Alemanha, havia surgido um movimento reformador chamado Anabatistas (“rebatizadores”). Era um movimento que tinha suas variações, mas que na sua essência pregava uma volta às Escrituras, bem como o batismo apenas de quem podia professar a fé por si mesmo. E por isso se opunham e não reconheciam o batismo infantil da Igreja Católica Romana, batizando os adultos que aderiam a sua pregação bíblica, o que lhes deu o apelido de “rebatizadores”. E entre os Anabatistas, em Amsterdã, havia um grupo chamado de Menonitas (fundado por Simon Mennon). A Igreja liderada por John Smith, que viera da Inglaterra, teve contatos com os Menonitas em 1610, recebendo influências desse movimento. Então, adotaram o batismo somente de adultos que professassem por si mesmos a fé, adotando primeiro o modo da afusão, e depois o da imersão.

Retorno à Inglaterra: Nasce a Primeira Igreja com a Identidade Batista – Uma Igreja Comprometida Unicamente com as Escrituras

Em 1612, uma parte do grupo de Smith retornou à Inglaterra, liderados por alguns homens, sendo o líder principal o advogado Thomas Helwys. O grupo voltou à Inglaterra decidido a propagar sua convicção baseada no Novo Testamento. Nesse ano o grupo se constitui em Igreja na capital Inglesa.

Assim, em 1612, sob a liderança de Helwys, aparece em Spitalfield, Londres, a primeira Igreja com as características já bem definidas do movimento que seria denominado de Batista. Os participantes afirmaram a Bíblia como a autoridade suprema e final da verdade Divina. Baseados nela criam e pregavam a salvação pela graça, ou seja, ela é uma dádiva de Deus, recebida apenas pela fé no perdão vindo do sacrifício de Cristo. Sendo a graça recebida pelo crer, afirmavam a vida cristã como uma experiência livre da consciência de cada pessoa. Por isso defendiam que a fé e a Igreja cristã deveriam ser independentes do governo e leis, e exigiam a liberdade de consciência e de culto.

No mesmo ano Helwys escreveu um livro no qual declarava que a fé deveria ser praticada livremente, o que era uma posição revolucionária para aquela época. A declaração dele dizia: “O rei é um homem mortal e não é Deus, portanto, não tem poder sobre a alma imortal de seus súditos, não pode fazer leis e ordenanças, e nem estabelecer senhores espirituais sobre eles”.(A History of the Baptists, pg. 38). E ainda afirmou: “A religião das pessoas é algo entre Deus e elas. O Rei não responderá por ela, nem pode o Rei ser o juiz entre Deus e o ser humano. Sejam as religiões heréticas, turcas, judias ou qualquer outra, não pertence ao poder terreno o puni-las nem mesmo com a menor das medidas.”Esse brado de liberdade levou o rei James I a lançar Helwys na prisão. Assim Helwys inicia a experiência da prisão, que muitos outros Batistas experimentariam no decorrer da História.

Batistas Se Espalham Pelo Continente Europeu

O movimento Batista continuou a crescer. Em 1660 havia 300 igrejas na Inglaterra, agrupando-se em dois ramos, os gerais e os particulares, dependendo da posição que tinha sobre a doutrina da eleição. Em 1834 é organizada a primeira Igreja Batista na Alemanha, e de lá o movimento se espalhou para a Escandinávia e Europa Oriental.

Batistas Estabelecem-se nos EUA

Muitos grupos Batistas, desejando uma liberdade que não tinham na Europa, imigraram para as colônias americanas. Eles vinham da Inglaterra, Gales, Escócia e Irlanda. Mais tarde outros vieram da Alemanha. Em 1631, Roger Williams, para escapar da perseguição religiosa, imigrou da Inglaterra para a colônia americana de Massachussetts (hoje um estado). Lá teve contato e influência dos Batistas. Ele foi expulso da colônia por defender a separação entre governo e Igreja. Em 1636 ele fundou a colônia de Rhode Island (hoje outro estado americano), estabelecendo a cidade de Providence. Williams colocou no documento de fundação a declaração de liberdade religiosa. Foi batizado em 1639, integrando-se a uma Igreja Batista. Assim, Rhode Island é o primeiro território nas três Américas onde, pela primeira vez, o povo gozou de liberdade de culto e consciência. Os Batistas também foram os que lutaram e conseguiram a separação entre governo e igreja no estado da Virginia. E mais, os Batistas foram uma das grandes influências que provocou a primeira emenda da Constituição Norte Americana. Essa emenda estabelece a separação entre a Igreja e o Estado, portanto liberdade de religião e consciência. O movimento Batista produziu vultos de destaque na história americana como o ex-presidente Jimmy Carter e o pastor Martin Luther King Jr. No século XIX os Batistas chegam à Austrália e Nova Zelândia.

E no século XX chegaram à Ásia, África e América Latina. Hoje estão no mundo todo.

O Brasil Recebe os Batistas

Dos Estados Unidos vieram William e Anne Bagby, os primeiros missionários Batistas no Brasil. Antes deles havia alguns fazendeiros americanos Batistas que se estabeleram na região de Santa Bárbara e Americana, mas a Igreja deles visava mais a colônia americana. Depois de um tempo de adaptação entre eles, os Bagbys foram para Salvador, Bahia, onde em 1889 organizaram a primeira Igreja Batista voltada inteiramente para os brasileiros. Depois vieram mais missionários americanos, bem como, mais tarde, vieram missionários da Alemanha, Inglaterra e Suécia. Também imigraram para o Brasil Batistas da Letônia, Rússia e Hungria.

O Princípio Batista da Cooperação

As Igrejas Batistas sempre creram que cada Igreja local deve ser autônoma, mas também sempre entenderam que elas devem se relacionar, e cooperarem entre si para projetos comuns. Por isso as Igrejas Batistas se agrupam em associações regionais, convenções estaduais e nacionais. A Convenção Batista Brasileira foi organizada em 1907, sendo o primeiro e maior grupo Batista do Brasil, mas há outras convenções. Em 1905 foi organizada em Londres a Aliança Batista Mundial, um congraçamento dos vários grupos Batistas do mundo.

Nasce a Igreja Batista de Bragança Pta.

A Igreja Batista de Bragança Paulista iniciou-se com a mudança de uma família Batista de Suzano para cá. Depois de realizarem por algum tempo reuniões em uma casa, formando um grupo base, eles decidiram organizarem-se em Igreja em 07 de setembro de 1935.O primeiro livro de atas registra a ata de organização do grupo em Igreja:
“Acta da organização da Egreja Baptista de Bragança, realizada a 7 de setembro 1935 às 19,15 horas, à Rua Cel Theophilo Leme, 212. Cantado o hyno 422 foi dirigida ao Pae celeste uma fervente oração pelo secretário correspondente do Campo Baptista Paulistano, Dr. Jayme de Andrade. A reunião foi presidida pelo Pastor José Grezenberg e secretariada pelo irmão Getulio Daniel de Souza.
O pastor J. Grezenberg fez uma exortação quanto à responsabilidade e deveres dos organizandos. O Dr. Jayme leu o “Pacto das Egrejas Baptista do Brazil”; e o Pastor J. Grezenberg consultou os congregados se estavam de acordo com este Pacto, ao que todos acquiesceram; foram lidas as cartas demissorias dos seguintes irmãos, provenientes da Egreja de Suzano: Cezar dos Santos, (e esposa) Maria dos Santos, Manuel dos Santos, (e esposa) Izabel dos Santos, Carmela Luchesi, Mario Centini, Cypriana Maria de Jesus, José Pelais, (e esposa) Hortencia Pelais, Olympio Pelais, Conceição Pelais e Odilla Pinto, que foram declarados em E.B.B. Foram também recebidos como membros pela novel Egreja os irmãos: Getulio Daniel de Souza (e esposa) Carmella Bueno de Souza, provenientes de Socorro.
A Directoria da Egreja ficou assim constituida: Pastor José Grezenberg; moderador, Cezar dos Santos; secretario archivista, Getulio Daniel de Souza; secretario correspondente, Olympio Pelais; tezoureiro, José Pelais. Ficou encarregado dos trabalhos do pulpito, em caracter provisorio o irmão bacharel em Theologia, Antonio Carmo dos Santos.
Foi dirigido à Egreja um discurso exortativo, pelo Dr. Jayme de Andrade sobre Mateus 16:18-18 que muito proveito trouxe aos regosijantes irmãos.
Foram os trabalhos encerrados com mais um cantico de alegria e louvor e uma oraçõa de ações de graças e suplica pela nova Egreja”. (sic)

PACTO DA IGREJA BATISTA DE BRAGANÇA PAULISTA (Pacto oficial da Convenção Batista Brasileira com adaptações)

Tendo sido levados pelo Espírito Santo ao encontro com Deus através de Jesus Cristo como único e suficiente Salvador, e batizados, sob profissão de fé, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, decidimo-nos, unânimes, como um corpo em Cristo, firmar, solene e alegremente, na presença de Deus e desta congregação, o seguinte Pacto:
“Comprometemo-nos a, auxiliados pelo Espírito Santo e para a glória de Deus, andar sempre unidos no amor cristão; trabalhar para que esta igreja cresça no conhecimento da Palavra, na santidade, no conforto mútuo e na espiritualidade; manter os seus cultos, suas doutrinas, suas ordenanças e sua disciplina; contribuir liberalmente para o sustento do ministério, para as despesas da igreja, para o auxílio dos pobres e para o anuncio do evangelho em todas as nações.
Comprometemo-nos, também, a manter uma devoção particular; a evitar e condenar todos os vícios; a educar religiosamente nossos filhos; a procurar a salvação de todo o mundo, a começar dos nossos parentes, amigos e conhecidos; a ser corretos em nossas transações, fiéis em nossos compromissos, exemplares em nossa conduta e ser diligentes nos trabalhos seculares; evitar a detração, a difamação e a ira, sempre e em tudo visando à expansão do reino do nosso Salvador.
Além disso, comprometemo-nos a ter cuidado uns dos outros; a lembrarmo-nos uns dos outros nas orações; ajudar mutuamente nas enfermidades e necessidades; cultivar relações francas e a gentileza no trato; estar prontos a perdoar as ofensas, buscando, quando possível, a paz com todos os homens.
Finalmente, nos comprometemos a, quando sairmos desta localidade para outra, nos unirmos a uma outra igreja com a mesma doutrina bíblica, em que possamos observar os princípios da Palavra de Deus e o espírito deste Pacto.
O Senhor nos abençoe e nos proteja para que sejamos fiéis e sinceros até a morte.”

Bibliografia:

  • Douglas, J.D., Editor, The New International Dictionary of the Christian Church, Zondervan Publishing House, Grand Rapids, Michigan, 1978.
  • Torbet, R. G., A History of the Baptists, Judson Press, Valley Forge, 1980.
  • Cairns, E.E., O Cristianismo Através dos Séculos, Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, São Paulo, 1988
  • Dowley, T., Editor, Eerdmans’ Handbook to the History of Christianity, Eerdamns’ Publishing Co., Grand Rapids, Michigan, 1977.
  • Pereira, J. Reis, História dos Batistas no Brasil, Juerp, Rio de Janeiro, 1982.
  • Livro de Atas, Primeiro Livro, Igreja Batista de Bragança Paulista.