O sucesso de uma pessoa sempre significa o fracasso da outra. Essa perspectiva reflete o entendimento que molda a mentalidade atual em relação ao complexo conceito de justiça. A propaganda indireta na mídia, e direta nas universidades, vêm formando uma geração com essa perspectiva. É a equivocada visão político-econômica baseada no princípio da “soma-zero” – se um ganha economicamente, o outro necessariamente perde.

O fomentador maior dessa visão foi Karl Marx. E essa visão, de forma revisada, impera hoje no Novo Marxismo que domina grande parte das elites intelectuais, educacionais e artísticas. Marx interpretou que todo lucro, conquistado pelo empreendedor, é necessariamente fruto de espoliação da “classe trabalhadora” que serve ao empreendedor.

Então, nesse entendimento, tudo se resolve se for expropriado o lucro, ou melhor, o empreendimento, das mãos do empreendedor, repassando-o para as “classes trabalhadoras”, isto é, para o governo. E, na teoria marxista, o “trabalhador” confia e se entrega nas mãos da ilusão de um bondosíssimo e eficiente governo que há de surgir.

Nietzsche defendeu que um sentimento muito presente nas massas sociais é o “ressentimento”. Resguardados os devidos reparos à essa interpretação, inclusive quanto ao cristianismo, o “ressentimento” explica em muito o princípio da “soma-zero”: “Eu não tenho por que o outro tem. A prosperidade do outro é a razão do meu empobrecimento. Ele tem que dividir comigo o sucesso dele.” O “ressentimento” é um mestre nada recomendável.

E, como visão político-social, a “soma-zero” tem contaminado outras áreas da sociedade. Uma ilustração concreta, mas muito grave, é a abordagem pedagógica em voga. Nela é ignorada a realidade que os alunos não se esforçam igualmente. E que sempre haverá alunos que não querem se dedicar. A pedagogia dominante, querendo erradicar a “desigualdade”, ignora essa realidade, e elimina a reprovação. É dado ao aluno irresponsável às mesmas aprovações dadas àquele que é responsável.

Diferentemente, uma sociedade justa não tolera desigualdade, mas isso apenas quanto a dignidade da liberdade de poder construir a vida. Equidade somente nesse âmbito pertence a justiça. É a justiça garante posturas legais e relacionais que permitam todos poderem lutar por seus sonhos.

Entretanto, a maturidade pede que se seja realista. Por mais justa que seja, a sociedade nunca poderá garantir que a vida ofereça oportunidades iguais para todos, nem que todos sejam igualmente dedicados diante das oportunidades, e nem que todos sejam igualmente hábeis diante de uma oportunidade ou atividade especifica (Uns serão melhores em um tipo de oportunidade ou atividade, e alguns em outra). Aliás, nisso em muito se equivoca o feminismo neo-marxista.

Ao mentalidade “soma-zero” tem embaçado a distinção e âmbito dos dois conceitos: equidade e justiça. A mentalidade “soma-zero” conclui que equidade indiscriminada é sinônimo de justiça. A complexidade da definição de justiça se manifestava já no debate de Sócrates com seus discípulos Céfalo, Polimarco e Trasímaco. Mas, de tudo que for debatível sobre o assunto, é inegável que a essência de justiça se refere ao mérito. E isso é ignorado pelo entendimento atual de “equidade”. O dar a alguém aquilo que ele merece é justo. Não dar é injusto. E conceder um bem, a alguém que nada fez para merecê-lo, não é justiça. Isso é misericórdia, mas não justiça. O cristianismo ensina, corretamente, a virtude da filantropia, ou, misericórdia, mas isso é distinto de justiça, ou, do mérito consequente de um ato.

O conceito da “equidade” generalizada despreza o mérito. Num país puramente socialista, se viesse a existir, além do empreender e possuir serem exclusividades do governo, todos receberiam o mesmo ganho, sendo ignorado o fator mérito – nesse país dominaria a equidade. Essa é sociedade do anseio movido pelo “ressentimento”. Porém, uma sociedade melhor seria movida pelo aperfeiçoamento em justiça, e não por equidade indiscriminada. E há muito a ser aperfeiçoado em termos de justiça social.

Hoje se sabe que Marx se equivocou. O lucro do empreendedor não é necessariamente o empobrecer da “classe trabalhadora”. Pelo contrário. O sucesso do empreendedor tem elevado a condição econômica da “classe trabalhadora”. Essa foi a razão por que o esperado levante do “trabalhador”, anunciado pelo marxismo, não aconteceu na Europa após a Primeira Guerra Mundial. O “trabalhador”, prosperando no Capitalismo, ignorou o Marxismo.

Frustrados, os marxistas reformularam a teoria criando o Novo Marxismo. Nele disseminaram o ressentimento em todas as facetas da sociedade. Agora, qualquer segmento, que seja construído, brada que é oprimido. E exige equidade, pensando que está exigindo justiça. Se há um lugar para programas sociais governamentais, eles devem visar capacitar os beneficiários, o mais breve possível, para lutarem por mérito, libertando-se da dependência governamental.

Recuperar o senso do que é uma sociedade justa é necessidade urgente. Uma sociedade que, preservando a dignidade de cada um quanto a possibilidade de lutar pela construção de sua vida, permita que cada um seja recompensado conforme seu mérito. E se abandone o equívoco que o sucesso de um é a causa do fracasso do outro. Aliás, no caso do sucesso do legitimo empreendedor, em geral, o efeito é o oposto.  “Quem lavra sua terra terá comida com fartura, mas quem persegue fantasias se fartará de miséria.” (Bíblia, Pv 28:19)