A influência da cultura norte-americana no Brasil passou a incluir a celebração do “Halloween”, também conhecida como “dia das bruxas”, no dia 31 outubro. Na noite de “Halloween”, acontecem as baladas tétricas, entretanto, o que mais se destaca é as crianças vestirem algum tipo de fantasia, geralmente algo macabro, indo de casa em casa solicitando doces. E ameaçam com algum vandalismo se não forem atendidas, com a saudação: “travessuras ou doces” (trick-or-treat). A ênfase é o terror.

A origem do “Halloween” (noite ou véspera santa) vem da idade média, decorrente de um costume que se iniciou no dia de todos os santos e de todos os mortos. Quando se ia de casa em casa, oferecendo orações pelos mortos, se adotou o habito de recompensar o ato retribuindo com algo apetitoso. Distante das ideias religiosas da idade média, o “Halloween” que se reduzia a brincadeira macabra infantil, avançou para baladas do macabro e bruxismo. É uma celebração do terror.

É relevante notar o abismo que há entre o “Halloween” e uma outra celebração norte-americana: o “Dia de Ação de Graças”, ou, “Thanksgiving Day”. E notar que, ao se copiar essas celebrações norte-americanas, se tem preterido o “Thanksgiving Day”, preferindo-se o “Halloween”. É um preferencia infeliz.

O “Thanksgiving” acontece sempre na quarta quinta-feira de novembro. O primeiro “Thanksgiving” foi em 1621 em Plymouth, no estado de Massachussetts, quando alguns colonizadores ingleses, conhecidos como “Peregrinos”, fizeram sua primeira colheita em solo americano. Indo mais atrás, tudo começa com o fato que na Inglaterra surgiu o movimento Puritano-Separatista. Esse movimento almejava que a então nova Igreja, denominada de Anglicana, resultante da separação da Igreja inglesa da Igreja Romana em 1534, purificasse sua doutrina, adotando somente o que se conformasse as Escrituras Sagradas, a Bíblia.

Por esse posicionamento, esses Puritanos foram duramente perseguidos, indo muitos se refugiar na Holanda. Em 1620, um grupo Puritano-Separatista de 102 pessoas partiu de Leiden, Holanda, para a América do Norte. Era um grupo formado por famílias, e não aventureiros réprobos. Lá chegando, conforme pacto firmado no navio, formaram uma colônia que se tornou um referencial histórico para os EUA. O primeiro inverno deles foi intenso. Quase foram dizimados no primeiro ano, restando apenas 50 pessoas. Esses sobreviventes, quando da primeira colheita deles, em 1621, celebraram um culto de ação de graças a Deus. E, tendo sido acolhidos, 90 índios nativos participaram do culto.

A questão que surge é porque um grupo, em condições tão adversas, decidiu render graças a Deus. A resposta está na teologia puritana-separatista abraçada por aqueles “Peregrinos”. Sem essa teologia desse grupo, a gratidão deles não faria, ou faz, sentido. O pensamento cristão deles é conhecido através dos escritos de John Robinson, o pastor do grupo. Esse pastor seguia os princípios da “Reforma”, conforme o Sínodo de Dort, realizado em 1618 na Holanda. Isso significa que os “Peregrinos” criam na soberana e eficiente graça de Deus revelada em Cristo.

Em meio a tanto desafios, duas verdades sustentavam os Peregrinos. Primeiramente, Deus, na sua soberania, movido não pelos méritos ou vontades humanas, mas apenas por seu inexplicável amor e graça, se revelou ao ser humano através de Cristo, conforme a Bíblia. E se revelou numa graça tão extensa que Cristo, na cruz, tomou sobre si toda a culpa daquele que se arrepende, provendo Cristo assim o perdão gracioso e a reconciliação eterna com Deus.

Então, os “Peregrinos” conviviam com um Deus bem distinto do “Deus” das religiões humanas desprovidas da graça plena em Cristo. Nelas há um infindo compensar moral e religioso a ser realizado pelo ser humano e seus méritos. Nelas nunca se chega ao descanso de se ter atingido o objetivo. É viver em constante terror. A graça de Deus em Cristo é diametralmente oposta a isso. Enfim, os “Peregrinos” criam num Deus essencialmente gracioso.

Em segundo lugar, os Peregrinos, crendo na soberania graciosa de Deus em Cristo, entendiam que a história deles, por mais difícil que fosse, estava debaixo do governo perfeito e amoroso de Deus. E por isso criam que a avaliação não se finaliza na circunstância imediata, mas na dimensão eterna que partilhavam no Cristo ressurreto. E, conhecendo o Deus da graça, também criam que Ele os agraciava com forças e sustento para atravessarem as vicissitudes inerentes a um mundo em desordem. Desafios sim, mas nada de terror e nada de macabro. Alegremente, os “Peregrinos” seguiam a orientação apostólica nas Escrituras: “Em tudo daí graças.” (Bíblia, I Ts 5:18)