Para muitas pessoas o trabalho é um mal necessário que elas suportam. É apenas meio de sobrevivência. É um tédio e sofrimento impostos a elas.  Outras pessoas tomam o trabalho como algo bom, mas não como um bem ético. Ele é bom no sentido terapêutico. O trabalho ocupa o tempo e assim ajuda a passar a vida. É mera fuga e paliativo.

E, para outros, o trabalho é visto como bom no sentido prático, mas contrapondo à virtude. É um meio eficiente apenas para se acumular riquezas. É, então, uma atividade egocêntrica e materialista. E é comum essa visão réproba ser camuflada pela bravata: “tenho a honra de ser trabalhador.”

Tanto os adeptos do trabalho por escapismo, como os do por egocentrismo, são em geral pessoas muito trabalhadoras. E podem ser honestas. Mas, nessas atitudes para com o trabalho, ele não tem uma razão de ser virtuoso e transcendental. Bem como não tem um significado acima da fugacidade materialista e egocêntrica. Ele não é um bem ético.

Para o trabalho passar a ser um bem ético, ele precisa extrapolar a dimensão banal, egocêntrica e transitória. Ainda que o trabalho deva ser uma boa ocupação do tempo e proporcionador de riquezas e vantagens, ele necessita ter uma justificativa que seja maior que a vida e a recompensa terrena.

Dois aspectos do trabalho precisam ser entendidos. Toda profissão é uma atividade de resolver, ou atender, um dado problema do próximo. E, então, toda profissão é servir aos outros através desse solucionar de problemas alheios (servir no sentido de algo que edifique quem serve e quem é servido). Sem esses aspectos – problema alheio, juntamente com o servir solucionando e edificando – não existe profissão e nem a renda financeira.

Porém, a questão é o que poderia motivar esse servir ao próximo. A resposta pode ser encontrada em boa medida na renomada obra de Max Webber denominada de “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. Essa obra de cunho sociológico explora o fator denominado de “ética protestante do trabalho”. Isso se refere aos princípios de vida formulados pela Reforma Protestante do século XVI, especialmente os do reformador Calvino. Eles redescobriram a visão de vida e trabalho segundo a Bíblia.

Esse ensino revolucionário dos reformadores formatou o movimento que ficou conhecido por “Puritanismo”, assim denominado por buscar uma doutrina cristã e viver “purificados” pelos valores bíblicos. O Puritanismo surgiu na Inglaterra, mas veio a ser uma influência marcante em diversas nações, inclusive na formação dos Estados Unidos. E nessa abordagem bíblica, os Puritanos formularam uma nova visão do trabalho.

A visão “Protestante” e “Puritana” tomava a vida, em todos os aspectos, inclusive profissional, como uma dádiva e um servir a Deus – todo trabalho é um sacerdócio. Essa nova visão foi revolucionária porque rompia com a visão, até então dominante na Europa, que dividia o trabalho, assim como a vida, entre duas esferas distintas: religioso e secular.

O trabalho para Deus era somente aquele da pessoa “religiosa”, como num mosteiro ou convento, a serviço da Igreja Romana. O trabalhador secular, entendia-se, não trabalhava para Deus. O trabalho secular teria, assim, apenas um fim em si mesmo.

Nesse contexto medieval surgiram os Puritanos com a nova perspectiva que, não obstante o trabalho ser transitório, os méritos e finalidade dele têm um significado e valor eterno que ultrapassa a recompensa material imediata. É um servir a Deus diante da sociedade. Assim passaram a realizar o seu melhor na tarefa profissional, com honestidade, ao mesmo tempo em que rejeitavam o paternalismo e cuidavam responsavelmente de si mesmos.

E mais, o Puritanismo resgatou o princípio bíblico que o trabalho é um dever. O encargo do ser humano ser útil e produtivo já estava implícito no mandato da criação no Jardim do Éden, conforme o relato de Genesis (Gn 1:28). E o ensino apostólico pontifica: “Se alguém não quiser trabalhar, também não coma… exortamos… que trabalhem… e comam seu próprio pão.” (Bíblia, II Ts 3:10-12)

Na construção de uma catedral, três pedreiros foram questionados sobre o que estavam fazendo. Um respondeu: Estou assentando tijolos. Outro respondeu: Ganhando meu salário. E o terceiro, que obviamente fazia também essas duas coisas, respondeu: Estou construindo uma catedral. Alguns transcendem, outros movem-se pelo que é imediato, pequeno e fugaz.

Conforme a Palavra de Deus, o trabalho é um dever, mas um dever que é motivado por uma realização espiritual plena e tem significado eterno, ou seja, além e acima da recompensa material temporal. O princípio bíblico fundamental aponta o propósito maior e transcendente da vida e trabalho: “…façam tudo para a glória de Deus.” (Bíblia, I Co 10:31)