Para muitas pessoas o trabalho é um mal que elas suportam apenas por necessidade de sobrevivência.  Ele é um desagradável atarefar sem fim imposto pela vida. É um tédio e sofrimento obrigatório. 

Outras pessoas tomam o trabalho como algo bom, mas a motivação delas não faz do trabalho um bem. Ele é bom porque ocupa o tempo e assim ajuda a vida passar. O trabalho é como uma droga usada para escapar do vazio existencial. É mera fuga.

Semelhantemente, para outros, ainda que não um bem na motivação, o trabalho é visto como bom porque através dele vem o acumular de riquezas. Para esses, o trabalho é uma artimanha egocêntrica e materialista. Nesse caso, ele é geralmente o meio para o individuo se tornar maior que seus semelhantes e amealhar mais coisas. Nessa perspectiva a vida é apenas um jogo com a seguinte regra: ganha o jogo quem chegar à morte com mais poder e mais “brinquedos”. E é comum a futilidade e ganância dessa abordagem materialista se apresentar como nobre ao alardear a bravata da “honra de ser trabalhador.”

Tanto os adeptos do trabalho por escapismo, como os do por egocentrismo, são em geral pessoas muito trabalhadoras e podem ser honestas. Mas, ainda que o trabalho seja bom para elas, ele não é um bem em si e nem para elas. O trabalho não tem uma razão de ser virtuosa e transcendental. Ou seja, o trabalho é tido como instrumentalmente bom, isto é,  na medida em que sirva de escape ou a interesses egocêntricos, dentro de uma visão de vida finita e materialista, portanto, sem significado eterno.

Para o trabalho passar a ser um bem, ele precisa extrapolar essa esfera medíocre, egocêntrica e transitória. Ainda que o trabalho possa, e deve, ser uma boa ocupação do tempo e, ainda que possa, e deve, proporcionar riquezas e vantagens, ele necessita ter uma razão de ser que seja maior que a vida e a recompensa terrena.

Duas dimensões do trabalho precisam ser entendidas. Toda profissão é uma atividade de se resolver ou atender um dado problema do próximo. E, então, toda profissão é servir aos outros através desse solucionar de problemas de terceiros (servir no sentido de algo que edifique quem serve e quem se beneficia, ou então não é realmente um servir). Sem esses dois aspectos – problema alheio e servir solucionando – não existe profissão e nem a renda financeira. É nessas duas dimensões que o trabalho se move para além de ser apenas bom, atingindo, então, o primeiro estágio de ser um bem. Porém, para ser um bem pleno, é preciso atingir o estágio final.

Por que alguém se preocuparia em resolver problemas alheios e servir aos outros? A resposta para essa pergunta encontra luz naquilo que a renomada obra de Max Webber denomina de “ética protestante”. Ela se refere aos princípios de vida baseados na Bíblia, conforme foram redescobertos pela Reforma religiosa do século XVI, sendo o reformador Calvino um dos campeões da nova visão. Essa luz revolucionária formatou o que ficou conhecido como estilo de vida dos “Puritanos”, assim denominados por buscarem uma religião mais pura diante dos valores bíblicos. Os Puritanos entenderam que as verdades cristãs abrangem o todo da vida, inclusive o trabalho. O Puritanismo surgiu na Inglaterra, mas veio a ser uma influência marcante em diversas nações, inclusive na formação dos Estados Unidos.

A visão “Protestante” e “Puritana” tomava a vida, em todos os aspectos, como uma dádiva e propriedade de Deus. Por isso, ensinavam que a vida, no seu todo, encontra significado somente se for vivida para Deus. Nesse entendimento o trabalho não era um egocêntrico correr atrás do vento e nem um escape do vazio, mas um servir a Deus no mundo. Essa nova visão foi revolucionária porque rompia com a visão até então dominante na Europa, que dividia o trabalho entre o religioso e o secular, sendo o trabalho para Deus somente o do chamado religioso a serviço da Igreja Romana.

Os Puritanos e Reformadores ensinavam que todo trabalho é um sacerdócio, isto é, toda profissão é um servir a Deus diante da humanidade. O trabalho prestado ao próximo é uma oferta a Deus. Nesse entendimento, não obstante o trabalho ser transitório, os méritos e fim dele têm um significado e valor eterno, além da recompensa materialista imediata. Essa visão faz do trabalho um culto a Deus.

Assim, trabalhar é o ser humano realizar o seu melhor através das habilidades e oportunidades dadas por Deus, rejeitando o paternalismo, cuidando de si mesmo, tendo direito ao justo ganho e propriedade, mas isso sempre com o alvo de fazer o bem ao próximo como um serviço diante de Deus, então, empreendendo sempre com retidão.

Essa visão estabelece que o trabalho é um dever. Quando da sua criação por Deus, o ser humano recebeu o seguinte mandato: “Encham e subjuguem a terra.” (Bíblia, GN 1:28). E o ensino apostólico determina: “Se alguém não quiser trabalhar, também não coma… exortamos… que trabalhem… e comam seu próprio pão.” (Bíblia, II Ts 3:10-12) O trabalho é um dever, mas um dever que recompensa com uma realização plena e significado eterno. Tal visão liberta da frustração da transitoriedade dos afazeres e conquistas humanas, bem como do materialismo vazio, transformando o transitório trabalho num ato de consequência e valor eterno. Por isso o principio bíblico mor aponta o propósito maior assim ordenando: “…façam tudo para a glória de Deus.” (I Coríntios 10:31)