“A terapia cognitivo-comportamental muda as pessoas e nós podemos provar isso”. Essa alegação implícita fez com que a terapia cognitivo-comportamental (TCC) se tornasse uma das terapias mais amplamente praticadas no mundo. Nenhuma outra forma de terapia tem a validação científica e o apoio popular atualmente usufruídos pela TCC. A TCC se tornou a principal intervenção para a maioria dos transtornos mentais nos Estados Unidos. Além disso, as diretrizes da prática de psiquiatria para quase todos os transtornos mentais incluem a TCC como terapia de primeira linha.

A TCC também é popular entre muitos cristãos que acreditam que ela pode ser efetivamente integrada à cosmovisão cristã. Argumenta-se que ela é (a) cientificamente demonstrada, (b) empiricamente eficaz e (c) consistente com os princípios bíblicos. Mas a TCC é realmente coerente com o ensino das Escrituras sobre motivação e mudança?

O que é TCC?

A TCC trata essencialmente de mudar a maneira como você pensa, a fim de mudar seu humor, perspectivas e produtividade. Em suma, a TCC é a aplicação de intervenções comportamentais e cognitivas para substituir “crenças centrais defeituosas” por “declarações de verdade”, resultando na mudança de sentimentos e comportamentos. Michelle Craske, diretora do Centro de Pesquisa em Transtorno de Ansiedade da UCLA (EUA), afirma: “A principal premissa da terapia cognitiva é que o pensamento disfuncional pode ser alterado e, por sua vez, levar ao alívio sintomático e melhoria no comportamento”. 

Semelhanças com o processo bíblico de mudança

Parece haver muitas semelhanças entre a TCC e o processo bíblico de mudança. Ao ler a lista de intervenções comportamentais usadas na TCC, muitas delas se parecem muito com estratégias que os cristãos adotam para “despir” ações pecaminosas. O “ensaio comportamental”, por exemplo, é frequentemente usado para preparar alguém para um futuro momento de tentação, as habilidades de solução de problemas são usadas para ajudar alguém a identificar respostas alternativas à tentação e os sistemas de reforço são utilizados em quase todos os grupos de prestação de contas. A TCC pode parecer muito com as abordagens do senso comum para mudança que muitos cristãos utilizam todos os dias.

Da mesma forma, a ênfase que a TCC coloca na identificação de crenças centrais defeituosas e pensamentos irracionais, confrontando-as com declarações de verdade e alterando o comportamento pela mudança dos pensamentos, tudo isso soa absolutamente bíblico. Afinal, em uma das passagens mais claras sobre motivação e mudança do ser humano, Paulo instrui os crentes a “não se conformarem com este mundo, mas serem transformados pela renovação de sua mente” (Rm 12:2). A TCC parece uma ferramenta simples e empiricamente demonstrada para renovar a mente. Tudo o que precisamos fazer é usar as Escrituras como o conteúdo dessas verdades e a TCC cristianizada é essencialmente aconselhamento bíblico, certo?

Embora possa parecer similar na superfície, a TCC e o processo bíblico de mudança são, de fato, muito diferentes. Isso não quer dizer que não haja componentes do processo bíblico de mudança que ecoem nos esforços dos terapeutas da TCC. Inegavelmente existem. Estóicos antigos, behavioristas skinnerianos, cognitivistas inspirados em Ellis e terapeutas cognitivo-comportamentais dos dias de hoje tropeçam em estratégias práticas que estão na Palavra de Deus o tempo todo e são utilizadas pelos cristãos há séculos. Mas isso não significa que precisamos integrar seus sistemas com a verdade bíblica para ajudar as pessoas de maneira mais eficaz. 

Verdade diferente

Então, quais são as diferenças fundamentais entre a TCC e o processo bíblico de mudança? Apesar de tanto a TCC quanto o processo bíblico de mudança envolverem a identificação de pensamentos falsos e a renovação da mente com a verdade, o conteúdo dessa verdade é completamente diferente. Na TCC, o terapeuta só pode afirmar o que é útil, enquanto apenas o conselheiro bíblico pode afirmar o que é verdadeiro. Todas as ‘declarações de verdade’ da TCC são utilizadas apenas porque se mostraram úteis no combate a ‘pensamentos automáticos’ e ‘crenças centrais’ que produzem ‘padrões indesejáveis’ de comportamentos e emoções.

O problema é que “o imperador está nú”. Só porque algo é útil para produzir padrões desejáveis de comportamentos e emoções ​​não significa que esse algo seja realmente verdade. Em contraste, o processo bíblico de mudança nos lembra o que o Deus do universo declarou ser verdadeiro sobre si mesmo, o que ele fez e quem somos nele. Ele nos lembra que ele é nosso Criador (Gênesis 1), nosso Salvador (1 Pedro 1:17-19), nosso Pai (João 1:12) e nosso Senhor (Ef 4:1-6). Ele nos lembra que nossas verdadeiras “distorções cognitivas” resultam do fato de termos esquecido quem Ele nos fez ser em Cristo (para aqueles que estão em Cristo). Ele nos lembra que:

Nele temos a redenção por meio de seu sangue, o perdão dos pecados, de acordo com as riquezas da graça de Deus, a qual ele derramou sobre nós com toda a sabedoria e entendimento. E nos revelou o mistério da sua vontade, de acordo com o seu bom propósito que ele estabeleceu em Cristo, isto é, de fazer convergir em Cristo todas as coisas, celestiais ou terrenas, na dispensação da plenitude dos tempos. Nele fomos também escolhidos, tendo sido predestinados conforme o plano daquele que faz todas as coisas segundo o propósito da sua vontade, a fim de que nós, os que primeiro esperamos em Cristo, sejamos para o louvor da sua glória. Nele, quando vocês ouviram e creram na palavra da verdade, o evangelho que os salvou, vocês foram selados com o Espírito Santo da promessa, que é a garantia da nossa herança até a redenção daqueles que pertencem a Deus, para o louvor da sua glória (Efésios 1:7-14).

Ao fazer isso, o processo bíblico não se contenta com a mudança no nível da superfície, mas procura atrair todos para o próprio Cristo. As escrituras nos ensinam que, mesmo que você tenha identificado e abordado todas as suas distorções cognitivas, ainda não está mais perto de se tornar quem você foi criado para ser em Cristo.

Alguns podem dizer que este é um exemplo perfeito de como podemos integrar a TCC e o processo bíblico de mudança. Se você trocar as declarações de verdade da TCC secular pelas declarações de verdade da Bíblia, não poderá integrar as duas sem problemas? Infelizmente, existem mais diferenças entre a TCC e a mudança bíblica do que simplesmente as declarações da verdade. O processo bíblico de mudança também utiliza meios diferentes.

Diferentes meios

Embora estratégias práticas para mudar nosso comportamento e abordar padrões de pensamentos falsos certamente façam parte do processo de mudança bíblica, as Escrituras nos oferecem muito mais. Na sua essência, a TCC nega o componente espiritual fundamental da humanidade. Ela nos vê como seres cujas ações e emoções podem ser manipuladas através de treinamento ou intervenção. Não há lugar na TCC para a realidade do coração, conforme as Escrituras o conceituam. A TCC nos diz que o que sai de nós procede de nossos hábitos. As escrituras nos dizem que o que sai de nós procede do nosso coração (Mt 15:18).

Mais do que tudo isso, na TCC, a resposta para nossos problemas é encontrada nas “declarações de verdade” corretas. Mas para o cristão, a resposta para os nossos problemas não é encontrada apenas nas “declarações de verdade”, mas na pessoa que é a Verdade. O próprio Deus é o meio de nossa transformação através da obra de Cristo na cruz e da obra contínua do Espírito Santo em nossos corações. Deus nos oferece mais do que certas verdades, ele nos oferece a si mesmo. Ele nos oferece mais do que declarações de verdade, ele nos oferece um relacionamento. É por isso que, conduzindo a instruções comportamentais, Paulo exorta os colossenses:

“Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado, então vocês também serão manifestados com ele em glória” (Colossenses 3:1-4).

Isso é diferente de “abordar as crenças centrais desadaptativas”. Trata-se de voltar para Aquele para quem fomos criados. Em Cristo, não precisamos nos contentar com mudanças através da gestão do comportamento, podemos ser transformados através do evangelho. Novamente, alguns podem apontar que, se alinharmos nossos meios e verdade com as Escrituras, ainda poderemos integrar a TCC e o processo bíblico de mudança, utilizando o melhor que ambos têm a oferecer. Mas mesmo se alinhássemos a verdade da TCC e os meios da TCC com o processo bíblico de mudança, ainda teríamos que reconciliar o fato de os dois terem objetivos distintos.

Objetivo diferente

Na TCC, o objetivo da mudança é determinado pelo terapeuta e pelo cliente em colaboração. Juntos, eles determinam o que é “saudável”. Isso significa que o objetivo da TCC acaba sendo simplesmente uma compilação dos desejos dos corações caídos dessas duas pessoas. Seus próprios sistemas de ética e moralidade informam para o que estão trabalhando e, geralmente, os objetivos se concentram na felicidade, na individualidade, na liberdade, no interesse próprio ou em alguma variação dos mesmos. Como tal, a TCC é fundamentalmente uma filosofia baseada em moralidade e ética culturalmente definidas. Pode ser o melhor sistema para alcançar esses objetivos, mas isso não significa que seja o melhor sistema para alcançar o que Deus deseja alcançar.

O objetivo de Deus para nossas vidas é diferente desses objetivos estreitos e subjetivamente definidos. Deus está, basicamente, interessado em nos tornar mais semelhantes a Cristo. Ele deseja que estejamos reconciliados com Ele através de Cristo, e tendo sido reconciliados, ele está nos transformando cada vez mais à Sua imagem. Como as Escrituras comunicam com tanta clareza:

“A vontade de Deus é que vocês sejam santificados” (1 Tessalonicenses 4:3).

“Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que nós as praticássemos” (Ef 2:10).

Mesmo que você “cristianize” a TCC estabelecendo a meta de moralidade definida na Bíblia, embora a TCC possa ser útil para alcançar metas autodefinidas, ela é incapaz de produzir as metas definidas por Deus: santificação e semelhança com Cristo. A TCC pode ter um grande corpo de evidências científicas para apoiá-la, mas nunca, em nenhum estudo, foi demonstrado empiricamente ser eficaz na produção de piedade. As escrituras são inequívocas neste ponto:

“Gostaria de saber apenas uma coisa: foi pela prática da lei que vocês receberam o Espírito, ou pela fé naquilo que ouviram? Será que vocês são tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, querem agora se aperfeiçoar pelo esforço próprio?” (Gálatas 3:2,3)

A TCC pode ser uma ajuda compassiva para pessoas que não conhecem Jesus, mas devemos reconhecer que é impotente para tratar suas maiores necessidades ou satisfazer seus maiores desejos.

A TCC muda as pessoas. É o que ela afirma. Entretanto, ainda que haja muitas evidências para demonstrar o fato de que ela pode alterar certos comportamentos e emoções, isso não significa que ela possa realmente mudar as pessoas. Pessoas feridas e em dificuldades precisam mais do que apenas mudanças no nível da superfície; elas precisam de transformação. E o que pode trazer isso? Como diz o velho hino: “Nada além do sangue de Jesus”.

Texto original em inglês “The CBT Therapist in Us All:  A Biblical Evaluation of Cognitive Behavioral Therapy” disponível em: https://biblicalcounseling.com/resources/acbc-essays/cbt-therapist-us/

Traduzido e adaptado com permissão da Association of Certified Biblical Counselors (ACBC). A qualidade da tradução é responsabilidade do tradutor (Dr Alexandre Valotta da Silva).

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