Pilatos questionou Cristo: “O que é a verdade?”. Mas, a narrativa continua: “Ele disse isso e saiu novamente.” (João 18:38). Pilatos não desejava uma resposta. Pilatos inquiriu, mas não estava apaixonado pela verdade. A paixão por outras coisas não o possibilitava de se dedicar à verdade e ouvir Cristo. Conhecer a verdade exige paixão. Diferente do entendimento comum, conhecer a verdade não é uma experiência que acontece no suposto âmbito frio da intelectualidade.

Gregório, o Grande, posicionou bem o assunto: “A verdade não será conhecida enquanto não for amada.” O químico- físico e filósofo, contemplado com o prêmio Nobel, Michael Polanyi, discutindo o conhecimento científico em sua obra “Personal Knowledge” (Conhecimento Pessoal), apontou: “Em cada ato de conhecer entra a contribuição apaixonada do conhecedor…” O argumento de Polanyi é que o conhecer não é um ato meramente racional de estabelecimento de fatos. Conhecer envolve o comprometimento do conhecedor.

Obviamente que, além da paixão, a verdade exige entendimento. Ninguém poderá conhecer e experimentar a verdade se não entendê-la. Mas, a questão não se define no entendimento. O entender da verdade exige uma paixão por ela. Bernardo de Clairvaux equacionou corretamente: “Aquele que entende a verdade sem amá-la, ou a ama sem entendê-la, não possui nem um e nem outro. ”

Assim, conhecer a verdade é muito mais que estabelecer um dado concreto ou teórico. Na sua totalidade, verdade é uma experiência mais profunda que envolve todo o ser humano. Ela é revolucionária do ponto de vista espiritual-existencial. A verdade é uma entidade universal que é eterna e sobre a qual o ser humano constrói sua existência. E quando o ser humano tem essa verdade universal, ele define à luz dela as verdades dos aspectos particulares da vida.

Enquanto a paixão do ser humano não for pela verdade, ou enquanto for contra a verdade, ele continuará evitando ou ignorando a verdade. Não há argumento ou arrazoado intelectual que faça a pessoa aderir a verdade enquanto ela não desejar ardentemente se entregar à verdade.  Pascal advertiu: “A verdade é tão obscura em nossos dias e permanece tão estabelecida que, se não amarmos a verdade, nunca a reconheceremos. ” A luta maior não é sobre demonstrar a verdade e nem é sobre se a verdade existe. A luta maior é sobre o que domina a paixão do ser humano.

Nisso está o desafio para o encontro do ser humano com Deus – a verdade. No Evangelho de João, no qual está registrada a atitude de Pilatos ao perguntar sobre a verdade, Cristo discorre assim: “Sei que vocês não têm o amor de Deus. Eu vim em nome de meu Pai, e vocês não me aceitaram; mas, se outro vier em seu próprio nome, vocês o aceitarão.” (João 5:42-43). Cristo apontou o centro do problema. Essas palavras explicam porque Pilatos esteve lado a lado com a verdade – Cristo, Deus Conosco – e perdeu a grande oportunidade de conhecer a verdade – Deus.  Pilatos perguntou e se retirou. Pilatos revelou ser um questionador: “O que é a verdade?” Porém, como muitos, foi apenas um especulador ou curioso. Nele não havia o amor pela verdade. A verdade estava na frente dele, mas ele não a desejava e, por isso não a conheceu e, por isso não a experimentou.

O amor pela verdade é impedido pelo amor por algo mais. Acima, Cristo fala dessa concorrência: “… se outro vier em seu próprio nome, vocês o aceitarão.” Há muitos tipos de competidores que batalham contra o amar à verdade – Deus. E, como revelam as palavras de Cristo, seja o que for, é algo humano, em oposto ao divino. Aí está a maior guerra que o ser humano enfrenta. É a luta de sua paixão, isto é, a quem ele vai se entregar. Por isso Cristo apontou que o maior mandamento é: “Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o coração…” (Mateus 22:37).

O desafio é que, conhecer a verdade nesse nível pleno, envolvendo o amor, tem repercussões radicais e fundamentais. A verdade revoluciona a pessoa, levando-a a se entregar a Deus. Esse é o maior desafio ao ego e orgulho humano, que é sempre apaixonado por si mesmo. Por isso a resistência à verdade – Deus. Experimentar a verdade passa pela cruz de Cristo, onde o ego humano foi crucificado, para que o ser humano pudesse ter a liberdade de amar a Deus, e assim experimentar a verdade.